Comunicaçao e Cultura
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Sunday, February 01, 2004
Uma “arqueologia” do audiovisual ... ou “Mestre não é aquele que ensina, mas aquele que de repente aprende” (Guimarães Rosa)
Acabo de concluir minha dissertação de Mestrado, com o título “O teleteatro na TV Tupi: origens e contribuições na teledramaturgia nacional”, penso na travessia que foi recolher o material de pesquisa, os caminhos repletos de idas e vindas, caminhos em espiral. E confesso que a travessia é por vezes mais importante que a chegada. É preciso que o prazer da chegada tenha sido esboçado no caminho, completado nas veredas e nos tropeços, sustos e retomadas da estrada. Durante o processo, recorri a entrevistas com profissionais pioneiros da televisão e caminhei no fio da navalha que é manter a distância entre o rigor científico e o deslumbramento possibilitado pelos labirintos da memória. E o invisível fio de Ariadne nos ajuda nos momentos exatos, a pesquisa assim se torna mais orgânica e a matéria narrada em experiência viva.
A seleção do material é um capítulo à parte, tão doloroso é selecionar e eliminar, inevitavelmente trechos e temas que mesmo pertinentes_ talvez por isso_ mereçam permanecer em uma espécie de limbo e aguardem o momento oportuno de virem à tona, quer em discurso acadêmico ou ainda na forma de ficção.
Percebi que o discurso acadêmico é polifônico, dialoga com várias vozes, autores e teóricos. Sua natureza não é ficar na estante de uma biblioteca, é exatamente dialogar com outras obras, em justaposição ou renovada contraposição.
Espero, ao recuperar um período muito particular do início da TV no Brasil, anterior ao vídeo tape e às redes de comunicação_ uma espécie de “arqueologia do audiovisual”_ contribuir com uma base de estudos desse período histórico dos anos 50 e 60 e suas repercussões na moderna teledramaturgia, como na ousadia formal do programa “Cena Aberta” (analisada no capítulo final da dissertação), que mistura o registro ficcional ao documental.
É dessa capacidade de risco e experimentação, tão comuns nos tempos pioneiros que a televisão renova seus caminhos criativos.
Agora leio ... Budapeste, de Chico Buarque.
Depois da pausa, mais que necessária, pós redação e com a sensação de dever cumprido, me entranho na Budapeste, de Chico Buarque. Narrativa de puro deleite lingüístico, que retoma de modo único o conceito de pátria-língua, ou de “minha pátria na ponta da língua” dos melhores pensadores/prosadores de Língua Portuguesa.
É ágil, irônico e possui trechos de arrebatamento lingüístico em história contada através do ponto de vista de um narrador ghost-writer, que se contenta com o anonimato, mas é tomado por uma paixão irrefreável por desvendar o húngaro _ “única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita”. Entraves e trava-línguas não faltam na história criativa desse personagem, como no trecho abaixo:
“Numa dessas madrugadas, meio sem querer liguei para o Rio: oi , é Vanda, no momento não posso atender, deixe sua mensagem depois do sinal. Religuei em seguida, porque a Vanda não abandonaria o menino à noite: oi é Vanda, no momento não posso atender ... Tornei a ligar e a ligar, até perceber que ligava pelo gosto de escutar minha língua materna: oi, é a Vanda ... Aí me veio o capricho de deixar uma mensagem depois do sinal, porque havia três meses, ou quatro ou mais, que eu tampouco falava a minha língua: oi é o José. Havia um eco na ligação, é o José, dando-me a impressão que as palavras estavam desgarradas da minha boca, Vanda, Vanda, Vanda, Vanda. E comecei a abusar daquilo, e falei Pão de Açúcar, falei marimbondo, bagunça, adstringência, Guanabara, falei palavras ao acaso, somente para ouvi-las de volta.”
(Buarque, Chico. Budapeste, São Paulo, Cia das Letras, 2003, p. 71)
10:10 AM
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Wednesday, December 17, 2003
Matrix não é simulacro, é ... Pseudo cinema
Não, não vi Matrix Reloaded e nem a terceira seqüência de Matrix. Me contentei em ver o filme inicial dos irmãos Wachowski. E me perguntei, para que mais continuação? Só se for para tentar unir os vários pontos que permaneceram soltos no primeiro filme, além, é claro dos interesses econômicos.
Matrix, em sua presunçosa tentativa de mostrar que vivemos em um mundo de simulacro, não consegue ir além da vulgarização de conceitos de Platão, como o "mito da caverna". Até mesmo em sua tentativa de intertextualidade ao apontar a narrativa de "Alice através do Espelho" de Lewis Carrol, o roteiro dos Wachowski não vai além de uma simulação, ou melhor uma pseudo intertextualidade, pois apenas toca tangencialmente nos conceitos de forma rasa e vulgar. Por sinal, os vilões de Matrix são mais infantis do que qualquer outro produzido na história recente do cinema. São tolos e pueris, não convencem nem aterrorizam.
Restou apenas ao final do filme, uma certa nostalgia da modernidade e lembrei da intensidade de Blade Runner e seus complexos replicantes ...
A amarga doce vida
A inebriante triilha de Nino Rota em A doce vida, parece muitas vezes ser o fio condutor que liga as seqüências narrativas da produção de Fellini. Como se quisesse preencher o vazio que existe na vida daquelas personagens que se escondem nas másacaras de burgueses entediados.
A Doce Vida tem um dos finais mais perturbadores que já vi. A cena na qual Marcelo (alter ego do conhecido Mastroiani) depois de uma longa orgia em casa da alta burguesia romana sai em companhia dos amigos e se depara com sa figura do peixe morto na praia que insiste em não desviar seu olhar congelado do grupo bizarro.
O final alegórico se justifica à medida que traça o painel da vida dessa personagens que transitam por uma Roma cristã e pagã, cujo significado parece permanecer a espeita.
9:46 AM
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Wednesday, November 12, 2003
Aos trancos e barrancos
Meu blog quase naufragou, ou melhor chegou a naufragar, mas acho que se recusou a morrer.
E lá vou eu tentando arrumar algum tempo entre a redação final de minha dissertação, pesquisas e vida para além disso tudo.
Paciência e resistência...
8:24 AM
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Wednesday, August 13, 2003
Kane, seu nome é Kane...
Aos 26 anos Orson Welles dirigiu e protagonizou seu Cidadão Kane, claramente inspiado no magnata da imprensa William Randolph Hearst.
Ousou no planos e narrativa não-linear. É referência no plano da forma e conteúdo cinematográficos.
Assisto ao Cidadão Kane e percebo o poder inebriante dos monopólios ancorados pela manipulação.
10:10 AM
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Thursday, August 07, 2003
Beyond Citizen Kane
Para saber mais sobre a construção do Império das Organizações Globo para além do óbvio ululante (!) fica aqui a sugestão do documentário produzido pela BBC "Beyond Citizen Kane" proibido de passar no cinemas brasileiros por ordem do mega-empresário das Organizações Globo.
E tudo começou com a vontade de um jornalista conhecer o significado da palavra "rosebud" ...
11:20 AM
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Wednesday, August 06, 2003
Um pouco de Emily Dickinson
Para me redimir do longo período de ausência total de meu blog, aqui vai um momento de Emily Dickinson ... epifania pura!!
Os que estão morrendo, amor,
Precisam de tão pouco:
um copo d'água, o Rosto
Discreto de uma flor.
Uma lágrima, talvez um leque,
e a certeza que nenhuma cor
do Arco-Íris perceba
Quando você se for.
12:29 PM
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Wednesday, July 23, 2003
E quem não olharia através da janela de Hitchcock?
Ontem revi o "Janela Indiscreta" que acho muito mais do que uma aula sobre cinema. Acho esse filme a "essência " do fazer cinema. Aquele plano-seqüência da abertura do filme, quando o bruxo Hitchcock nos convida a olhar, a sermos cúmplices do olhar do diretor e do protagonista e entrar naquela intimidade do condomínio em NY é uma delícia para qualquer voyeur. E cinema é a "arte do olhar". Olhar e movimento. Não é à tona que essa cena continua sendo referência a todo realizador e amador do cinema. Aparece nas cenas mais interessantes do "Homem que copiava".
O velho Hitch assombra e diverte com sua mistura entre o humor e o macabro. Talvez o que eu mais aprecie nele seja justamente esse senso de humor e profunda devoção para com o espectador.
O material extra do filme no registro do DVD traz uma entrevista muito boa com o roteirista do "Janela Indiscreta" que revela ter acrescentado aquelas personagens paralelas à trama central sobre o homicídio. Aquilo é bárbaro! Esse filme caminha numa ousada trama não linear, o que é muito moderno. É uma narrativa simultânea. O mestre sabia como ninguém do seu ofício, não?
11:57 AM
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Thursday, June 26, 2003
A voz do morro
O escritor Paulo Lins, autor de Cidade de Deus, em entrevista à Revista Caros Amigos de maio (n 74) fez importante constatação sobre a falta de leitura que atinge todos os níveis sócio-econômicos no Brasil: " E pouca gente lê no Brasil, essa idéia de que rico lê ... Se o rico lesse, não seria tão idiota como é. Tentaria diminuir um pouco essa discrepância financeira".
Essa elite é a mesma retratada por Machado de Assis que encontra na figura cínica de Brás Cubas um exemplar único. Será que a elite lê Machado??
11:26 AM
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Thursday, June 05, 2003
Tradução & Traição
É profundamente irritante o péssimo hábito que nossos tradutores têm em alterar completamente o significado de títulos como acontece em filmes como All About Eve que no Brasil chegou com o nomne de A Malvada. Além de subverter e simplificar o título em inglês, acaba por gerar uma expectativa que em nada contribue para o sentido do filme. Outro "deslize lingüístico" acontece no título em Português para o filme A Streetcar named desire com o pesaroso título que ganhou em português: Uma rua chamada Pecado. Aqui a palavra "pecado" conota um sentido de acusação moral inexistente no filme. Bem, esse problema não se restringe apenas ao títulos de filmes, existe uma versão de editora portuguesa para o livro de Henry James A volta do parafuso que ganhou o nome de Os Inocentes, mais uma vez rompendo com as expectativas.
É fundamental termos em mente que as palavras conotam e agregam significados, portanto merecem maior respeito dos tradutores que percorrem os nem sempre fáceis caminhos das transposição lingüística, Por entre fatos e nomes lançamos os significados para serem completados na vida social.
11:15 AM
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Sunday, June 01, 2003
A Persona sexual de Brando
Para Camille Paglia no erudito Personas Sexuais o “cinema é exibição sexual, uma ostentação pagã”. Para ela, Hollywood é a “moderna Roma pagã”. É exatamente esse poder vigoroso que transborda na interpretação antológica de Marlon Brando em “Uma rua chamada pecado” (A streetcar named desire – EUA, 1951). Na versão do diretor Elia Kazan que o DVD apresenta sobre a obra do dramaturgo Tenesse Williams, fica evidente a tensão sexual entre as personagens de Blanche Dubois (Vivien Leigh frágil e loira, longe da imagem da Scarlet O’Hara que a perseguiu durante sua carreira) e de Stanley Kowalski (vigorosamente interpretado por Brando). Parece ser pouco, mas os três minutos que foram cortados pelos censores na Hollywood de 51, permitem visualizar o desejo dessas personagens atormentadas pelo vazio do cotidiano e contraste de personalidade.
O contraste entre o rude Stanley e a frágil Blanche são fortemente caracterizados no filme. As soluções que cada um deles realiza para suas vidas impressionam. Ainda a frase dita por Blanche soa verdadeira “Não quero realismo, quero mágica”, levando-se em conta a força interpretativa desse drama que extrai do realismo a matéria da ficção.
1:48 PM
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Monday, May 26, 2003
O alvo e a mira de Moore
Ao roubar a cena na cerimônia do Oscar, Michael Moore em seu discurso contra a Guerra ao Iraque e ao presidente George W. Bush chamou a atenção para o compromisso do documentarista em defender um ponto de vista e não meramente registrar os fatos. Tiros em Columbine (Bowling for Columbine) confirma esse comprometimento de Moore em levantar hipóteses sobre a fascinação dos norte-americanos sobre as armas de fogo. Ele questiona a origem da cultura bélica nos EUA. Em viagens pelas pequenas e provincianas cidades interioranas, Moore investiga e interfere na realidade, longe da aparente isenção documentarista mais tradicional.
8:20 AM
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Sunday, May 04, 2003
Frida Pop
Achei Frida um filme de produtor, ou melhor, da Miramax que não iria oferecer um orçamento tão generoso se algo pudesse fugir ao seu controle.
A obra de Frida Kahlo já se tornou pop, não é à toa que Madonna incorporou-a tão bem. Aqui não vai uma crítica ao pop em si, mas ao tom distanciado dado à narrativa, de modo a mitificar Frida, sem brincar com a personagem, porque acredito que ela ao se retratar quase compulsivamente fazia uma catarse irônica de suas tragédias pessoais. E o filme leva isso muito a sério. Senti que faltou brincar mais com as cores e com o mundo artificioso criado por ela mesma como marca de individualidade. O contraste entre os dois mundos artísticos de Frida, carregado das marcas pessoais e o do marido Diego Rivera, com seu amplo painel social, poderia ser melhor explorado. Quem sabe no futuro próximo Frida seja revisitada pelas cores de um mestre em recriar o mundo pop como Pedro Almodóvar?!
Pé no chão e olho na tela
Com o sugestivo título acima, a comunidade acadêmica ganhou esta semana a Mestre em Ciências da Comunicação, Andréa Cataneo que defendeu no dia 30 de abril a dissertação que analisa os sites sobre educação ambiental para crianças na internet.
Atenção editores: o conteúdo apresentado é uma excelente fonte de referência voltado para a formação pedagógica e ambiental, de forma interdisciplinar. O caráter inédito do trabalho pode ser utilizado na formação de público crítico, sobretudo na formação de educadores preocupados com a consciência ambiental.
Presente/passado/futuro
“Os mapas para o futuro só podem ser traçados por aqueles que estudaram profundamente o passado”
Mais uma frase de Camille Paglia ao mergulhar no ensaio erudito Personas Sexuais no qual analisa a representação literária em termos de sexualidade desde os primórdios da civilização ocidental até o fim do século XIX. Sem esquecer de fazer suas relações com o mundo pop.
2:04 PM
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Sunday, April 27, 2003
E meu blog vai ...
Dois meses de blog ... O ritmo de intertextos é oscilante, ao sabor da vontade dos ventos e dos contratempos, fugindo do mar das calmarias. Mas assim mesmo navega ... E la nave và.
Entre campos e espaços
Esse blog se propõe a ser um espaço de interdisciplinaridade entre as várias artes, como nos ancestrais tempos nos quais Filosofia e Artes comungavam, sem falsas fragmentações. Pretendo preencher nesse espaço virtual as relações entre o cinema, literatura e artes plásticas. Humildemente reconheço que Intertextos estava em falta com esta última. Durante a semana me redimi através da visita à exposição de artes plásticas do amigo Eduardo Souzacampus.
Sinto dizer que a exposição ficou em cartaz até o dia 25 de abril, para maiores informações fica a sugestão do site www.souzacampus.com
Aliando com vigor as várias camadas de significado entre referências literárias que vão da mitologia grega, passando pelas sombras de Poe e tons dramáticos do Hamlet, Souzacampus consciente do trabalho do artista em criar múltiplos diálogos transita entre o abstrato e o figurativo, entre o icônico e a palavra escrita. Em várias telas, utiliza-se da técnica do óleo sobre madeira para imprimir trechos gráficos de palavras numa escrita circular, que se abre em diálogo com o receptor.
A intermediação do olhar e o movimento circular das composições são recorrentes. Os pares opostos entre vida/morte, luz/sombra se completam como no Livro das Mutações do I- Ching, convidando a todos para a celebração dos significados.
A sobrancelha levantada de Camille
Leio Sexo, Arte e Cultura Americana de Camille Paglia, cuja primeira data de publicação é de 1992. E mesmo passados dez anos do furor causado por sua obra prima Personas Sexuais, sinto que Camille ainda incomoda (e muito) a puritana sociedade e meio acadêmicos norte-americanos.
A provocativa capa de Sexo , Arte e Cultura Americana na qual Camille está num vestido de tons neutros que casariam com o pensamento acadêmico convencional adquire outros contornos (no generoso decote). Completando a cena, Camille com sua famosa sobrancelha esquerda levantada (segundo ela mesma herança italiana) aparece rodeada de dois afro-descendentes com pose vigorosa e sensual. Sim, ela quer provocar o meio acadêmico com suas críticas à falta de vigor e rigor (no caso não é mera rima pobre).
Paglia lança farpas ao pensamento acadêmico norte-americano, que segundo ela está esvaziado por tentar incorporar a todo custo a pulsante realidade dos meios de comunicação ao pós-estruturalismo francês.
Há um belo e contagiante capítulo sobre as trocas culturais entre o “Oriente e Ocidente – uma experiência de multiculturalismo”, feito em parceria com a professora sino-americana Lily Yeh em curso de Humanidade da Universidade das Artes da Filadélfia.
Vou lançar drops da mente pulsante dessa atípica intelectual americana por esse blog ao longo da semana. Por enquanto fica esse pensamento que alia o mundo pagão com o das culturas de massa: “ O culto da celebridade de Andy Warhol é uma transposição da iconografia católica, com santos dourados tornando-se estrelas reluzentes. Considero esse processo erótico de idolatria moderna como uma erupção do paganismo antigo, latente no catolocismo” (PAGLIA 1992:53)
Retratos de humanidade no cotidiano
As imagens recentes mais criativas da televisão brasileira vêm das ágeis vinhetas apresentadas pela MTV. Estou falando daquelas em que aparecem vários ícones e situações comuns do dia-a-dia entremeadas por palavras escritas em vários idiomas como: vida, alegria, morte, amor. Como retratos relâmpagos do cotidiano, essas imagens mostram uma humanidade que transpõe fronteiras.
8:29 AM
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Thursday, April 03, 2003
O pianista, de Polansky ou a Arte da resistência humana
Entre as cenas do filme O pianista a mais comovente talvez seja justamente aquela que deixa transparecer o silêncio, e desejo reprimido. O protagonista_ especialista em Chopin_ sente a irreprimível vontade de executar uma peça musical ao estar de frente ao piano, mas o som é a denúncia de sua presença na Varsóvia tomada pelo exército alemão. Nesse instante, o diretor Polansky intervém com seu tom narrativo quase brechitiano, tornando o desejo pela sobrevivência mais forte do que qualquer sublimação artística. Nesse relato do anti-herói, a sobrevivência é o mote. Em um mundo cujas pessoas são desumanizadas e colocadas em uma situação limite, a arte cede espaço à sobrevivência.
A presença da música é pontual e econômica no filme, o que reforça seu caráter expressivo quando ocorrem as pontuações musicais ao longo da narrativa. Esse trecho de O pianista é sutil, mas carregado de intensa força dramática. Ao tocar um piano imaginário e silencioso, nosso anti-herói compartilha com o público o caos e absurdo da guerra. É Polansky em plena forma, pontuando pelo som a força dramática.
10:10 AM
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Essa qualiEntre a História e Memória _ Parte II
A regionalização da produção televisiva é parte integrante da nova lei do audiovisual. Mas novamente no Brasil percebemos o enorme hiato existente entre a lei formal e sua aplicação concreta.A produção televisiva ainda sofrerá um longo período para se adaptar à nova realizade de produção estimulada pela lei, quebrando resistências das forças hegemônicas.
As grandes emissoras, acostumadas a dominarem a produção no território nacional precisarão reestruturar modelos e oferecer liberdade criativa para atender a demanda por produção regional de qualidade. Observar as diferenciações e respeitar a pluralidade cultural brasileira é um longo caminho a ser trilhado, não basta agregar a "cor local" ou o mero acento lingüístico. Respeitar é dar voz e criar condições para o efetivo diálogo.
9:45 AM
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Monday, March 31, 2003
Entre a História e a Memória
O Núcleo de Pesquisa em Telenovela da Escola de Comunicações e Artes de São Paulo promoveu hoje o debate "Telenovela: História e Memória" com a participação da escritora Maria Adelaide Amaral, da diretora Denise Saraceni e do historiador Elias Saliba.
Entre os variados temas discutidos, ganhou destaque o conceito de que o discurso histórico é também uma reconstrução, não apenas privilégio do discurso ficcional. Ambos têm como ponto de partida a reconstrução que pode muitas vezes ser amparada na memória coletiva.
Do ponto de vista da produção, a telenovela aponta a necessidade de atrair o público através da busca pela própria identidade histórica nacional. São inúmeros os exemplos de minisséries produzidas que buscam no tratamento histórico a comunicação com os telespectadores ávidos por conhecer aspectos de nosso passado histórico. Esse caminho entre a História e a ficção é sinuoso, sendo destacado por todos a crescente exigência do público por qualidade, de modo a tornar os realizadores atentos aos múltiplos discursos da História.
11:33 AM
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Thursday, March 27, 2003
Mais de Michael Moore
Bem ... depois de uma ligeira pausa no blog, volto a escrever. A pausa é por uma nobre causa, acabo de entregar meu exame de qualificação.
E o movimento de rotação e translação do planeta azulzinho continuou ... e Mr. Bush invadiu o Iraque, ignorando a ONU e o mundo. Mas como nem todas as vozes nos EUA são a favor da invasão, aí está o pronunciamento do documentarista Michael Moore sobre a fictícia democracia norte-americana.
Para quem ainda não viu ou leu o pronunciamento de Moore (aí está a íntegra, sem direito à orquestra da premiação subir o som para ofuscar a voz, é claro!):
"Que vergonha, senhor Bush", diz Michael Moore no Oscar
SÃO PAULO (Reuters) - O cineasta Michael Moore ganhou no domingo o Oscar de melhor documentário por "Jogando Boliche por Columbine". Ao subir no palco do Kodak Theatre, ele convidou todos os outros documentaristas que concorriam ao prêmio para ser juntar a ele num protesto contra a guerra no Iraque. "Convidei os meus colegas indicados que viessem comigo ao palco e eles estão aqui em solidariedade a mim. Todos nós gostamos de documentário, mas vivemos num tempo de ficção, com resultados eleitorais fictícios, um presidente fictício... Estão nos enviando à guerra por razões fictícias. Que vergonha senhor Bush, vergonha do senhor. O seu tempo acabou", disse ele.
Resta a nós, fazermos coro a essas vozes e esperar a estréia do documentário de Moore no Brasil.
11:42 AM
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Friday, March 07, 2003
Retratos-relâmpagos da cidade prosaica
Inércia e movimento
Frente ao monumento os corpos exaustos
empurram o tempo
O espaço infinito
a ser ocupado
para que tanto espaço?
Talvez o beco já bastasse
aos meus ínfimos planos
Apenas o tempo
dilata-se e dilacera
os corpos exaustos
12:50 PM
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Monday, March 03, 2003
Quem ainda tem medo de Virginia Woolf?
Assistir ao As horas em pleno domingo de Carnaval brasileiro (no sentido lato, como somente aqui a palavra Carnaval adquire) é uma prova de resistência. Primeiro: resistir ao burburinho das ruas e escolher o silêncio. Segundo: escapar do calor senegalês que anda fazendo em SP - sem apelo para chuvas de verão no final da tarde_ para encontrar o oásis perfeito na sala de exibição, com seu providencial ar-condicionado.
As cenas iniciais de “As horas” projetam o ritmo da literatura de Woolf para o interior da vida trivial das três personagens principais. Aqui, nos deparamos com a vida de três mulheres deslocadas na sociedade. Escondem sob o manto da rotina os mais profundos desejos e a sensação de deslocamento social. A forma que cada uma delas irá responder aos desejos de mudança ou acomodação é a tônica do relato paralelo de suas histórias que se entrecruzam.
Das três histórias, a trama que corresponde à vida da escritora inglesa Virginia Woolf (interpretação pálida de Nicole Kidman, ofuscada pela prótese nasal?) é de longe a mais superficial e desprovida do vigor criativo daquela que inaugura um olhar especial sobre o mundo das aparências e essências que se escondem no dia-a-dia. Na narrativa, a opção pelos momentos de profunda depressão da escritora, motivo que a levou ao suicídio parece uma opção pelo óbvio, minimizando a importância de sua escritura.
Já as personagens vividas por Julianne Moore, dona-de-casa dos anos 50 e Maryl Streep, editora novaiorquina contemporânea, carregam a maior vitalidade da narrativa. São elas as responsáveis pela inquietação dos desejos.
A resistência a tudo aquilo que mata o desejo (seja ele o amor não convencional, seja a própria arte) pode ser realizada com a opção pela vida ou pela morte. Mas que seja feita como opção, escolha pessoal.
Sim, enquanto as horas da projeção de distendiam ao ritmo lento do filme, lá fora o bloco carnavalesco entoava “não me leve a mal/hoje é carnaval”. E ainda dizem que os trópicos são tristes ...
5:02 AM
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Saturday, March 01, 2003
Vida longa ao Cine Belas Artes
Os cinéfilos paulistas podem ficar tranqüilos quanto ao destino do Cine Belas Artes. Fechado nesta sexta, 28 de fevereiro, acordo com a empresa carioca Pandora para reforma do prédio que desde a década de 60 exibe filmes do chamado “cinema de Arte”. O Bela Artes chegou a exibir em seus porões filmes censurados pelo regime militar nos anos 60, resistindo ao poder dos coturnos. Mas no final da década de 90 a decadência atingiu suas instalações quase levando o consórcio que o administra a fechar suas portas. Dessa vez o cinema perderia seu poder de resistência frente ao imponderável mercado.
Seria muito triste ver mais uma sala de exibição ser transformada em estacionamento ... Para o final feliz dessa história foi fundamental a participação dos amigos do Belas Artes, movimento popular que chamou a atenção de todos, permitindo as mudanças.
11:52 AM
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Para gregos e troianos
Apresentar a imortal mitologia grega para crianças é a proposta de Contos e Lendas da Mitologia, escrito por Claude Pouzadoux, ilustrações de Frederick Mansot, na tradução de Eduardo Brandão, publicado pela Cia das Letras.
Que tal contar a sofisticada mitologia que sempre causa espanto aos olhos de crianças e adultos à noite antes de dormir? Durmam com anjos, ninfas, deuses e deusas ...
10:24 AM
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Friday, February 28, 2003
Happy Fridays
Raras a safra de filmes de março de 2003. Ficar em dúvida entre assistir As horas que estréia hoje ou Adaptação, já em cartaz é uma instigante dúvida para o fim-de-semana. Fazia tempo que os EUA não contribuíam com bons filmes. Bem, não só de guerra vivem o Estados Unidos ...
Uma velha guerra
E por falar em guerra ... (também poderia ter falado nas flores) Em breve estréia O Americano tranqüilo, produção da Miramax, adaptado do livro homônimo de Grahan Greene que retrata o conflito humano frente à intervenção norte-americana durante a Guerra de libertação da Indochina (atual Vietnam). Bem, os métodos do norte-americanos não são aquilo que podemos chamar de éticos e o Vietnam, todos nós sabemos o que aconteceu com a continuação dessa longa História. O título irônico não deixa margens a dúvidas. O Apocalipse Now também teve sua gênese aqui.
Boa safra cinematográfica que ainda promete novidades!
Miséria é miséria em qualquer canto
Independente das críticas sempre apressadas de muitos, As Gangues de Nova York têm uma força histórica muito grande. Ao escolher relatar um episódio de intolerância étnica na sua NY, Scorsese atualiza a discussão sobre as várias formas de não aceitação do outro numa cidade que nasceu múltipla e contraditória.
Em tempos tão cruéis como os atuais, a reflexão sobre a intolerância e violência urbana ecoam, no filme com uma vitalidade histórica. É no passado da cidade que encontramos a motivação para muito do comportamento de segregação norte-americano. É dolorosamente atual essa NY de Scorsese, mais ainda, ela é profundamente global. Revela o "ódio étnico" que o mundo está mergulhado. Pode-se fazer uma alegoria entre os “Five Pounts” de NY e a Cidade de Deus. É nesses lugares onde o poder corrupto alia-se ao paralelo tendo como base a exclusão social.
O Oscar é só o Oscar
Fiz questão de escrever o nome da premiação com o símbolo da marca registrada (como agora é grafado, apesar de não ter conseguido incluir o símbolo, vale a intenção) porque é assim mesmo que é absorvido pelo mercado. Os produtores/diretores e a indústria correm atrás de uma indicação como mariposas a procura da luz. Muitos ficam cegos pela luz intensa, mas gostei de saber que O Cidade de Deus tenha se livrado do peso daquela ansiedade da imprensa brasileira pela estátua. Será mesmo que nosso cinema precisa tanto da chancela da deusa platinada Hollywood? Ou devemos fazer ar blasé e ir a algum bar tomar cerveja durante a premiação.
1:58 PM
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Thursday, February 27, 2003
Relutei muito em criar meu blog, se tivesse escolhido um 29 de fevereiro de qualquer ano bissexto, talvez pudesse atualizá-lo esporadicamente. Algo assim, como a cada quatro anos?? Não! Acho que o blog tenha um efeito terapéutico de estabelecer uma disciplina de escritura diária. Vamos ver ... Enfim, como um filho deverá ser alimentado. E também como filho, cria uma nova rotina. Momentos de afetividade e outros de desconforto. E isso porque nem o tenho... mas tenho o blog.
8:46 AM
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